“Tudo o que você posta poderá e será usado contra você no tribunal das mídias”

Dr. Fábio Caim – publicitário, psicanalista - “Tudo o que você posta poderá e será usado contra você no tribunal das mídias”

Sou de uma geração que nasceu no final do período predominante da comunicação de massa (isso não significa que ela ainda não exista), viveu o início e o desenvolvimento da comunicação midiática, que estabeleceu a integração entre diversos meios de comunicação e suas linguagens e, também, acompanhou a migração do analógico para a comunicação digital, o aumento exponencial do uso das plataformas sociais, a verdadeira mobilidade como característica de todas as mídias e o sequestro da privacidade pelas mídias digitais.

A minha geração é a X, que são os nascidos entre 1965-1984, mas é preciso levar em conta que existem diferenças sobre os intervalos de anos, dependendo da fonte.

O importante é que a ideia de geração agrega mais do que um dado demográfico (faixa etária), na verdade, agrega uma série de eventos que marcaram o percurso de formação dos indivíduos durante alguns anos.

A geração X é aquela da interrogação, da variável não precisa, das possibilidades indefinidas e das alterações não esperadas. Além disso, essa geração é fruto das mudanças comportamentais e estéticas que foram se configurando a partir das décadas de 50, 60 e 70 e que explodiram em uma confusão de cores chamativas na década de 80, para em seguida se transformarem em uma estética um pouco mais sóbria e bem jovial nos anos 90, incentivada pelo clima de avanço econômico vivido no Brasil.

A Geração X nasceu nesse ambiente offline, onde o entretenimento era trazido pela TV, a música pela rádio, a informação pelo jornal impresso e assim por diante. Nessa realidade a comunicação era formada pela justaposição de uma série de mídias, que ao serem consumidas também eram descartas em seguida. Muito diferente das pegadas digitais que atualmente se perpetuam indefinidamente nas diversas nuvens.

O sequestro da privacidade no ambiente digital é consequência e sintoma do avanço dos softwares de análise de informação (big data), do aumento da capacidade de memória e processamento dos dispositivos, do maior acesso aos smartphones pela população e da mobilidade trazida pelo wifi.

Viver na contemporaneidade significa necessariamente deixar trilhas e não somente rastros.

Se por um lado não postar pode significar o apagamento da marca pessoal e um esvaziamento da própria influência, por outro, postar demais pode posicionar um alvo nas costas do sujeito tornando-o vítima de linchamentos virtuais, cancelamentos, além da perseguição dos famosos haters.

Nos processos de linchamento, cancelamento ou na agressividade de haters o passado digital está próximo de um clique, ou acessível na busca por palavra-chave. O resgate de conteúdos antigos faz com que estes se transformem em conteúdos atuais, porque o passado inexiste no eterno presente dos ambientes digitais.

Assim, atira-se sobre o sujeito uma presentidade avassaladora, esquecendo-se que somos indivíduos históricos e que perspectivas mudam, consciências se alteram e novas mentalidades são assumidas.

Impacto maior sofrem aqueles que pertencem à geração Z (2000-atual), com no máximo 20 anos. Essa geração nasceu com suas fotos de infância sendo compartilhadas digitalmente entre a família e nas mídias sociais, com suas festinhas nas escolas filmadas e postadas, com grupos de pais discutindo sobre sua formação, seu futuro, suas atividades entre outras, ou seja, com a normalização desse “sequestro” da privacidade.

Não atoa muitos influencers millenials e da geração Z sofrem com suas postagens equivocadas, vem virtude do constante erro de acreditar que suas mídias “pessoais” são o mesmo que “privadas” e que suas vozes necessitam ser ouvidas.

Vou me explicar – mídia pessoal significa que a conta é gerenciada pelo titular, por aquele que a criou, no entanto, não há posse definitiva, pois se a rede acabar (Orkut e tantas outras) a conta será encerrada.

Nenhuma conta em mídia social é, efetivamente, privada já que o controle não está nas mãos do usuário, seus dados são absorvidos pela plataforma e trabalhados para sua otimização.

Esse descompasso entre o privado e o público tem gerado incontáveis erros, como da Gabriela Pugliesi que pensou ser apropriado divulgar sua pequena reunião com amigas durante o período de quarentena da pandemia, como se sua privacidade tivesse que ser exaltada mesmo enquanto agia de maneira errada. Outro exemplo são as postagens do Mc Biel, como uma em que insinua que seu cabelo trançado lhe conferiria cara de bandido, promovendo a associação de um penteado afro com criminalidade.

Não quero dizer aqui que sofro de saudosismo exacerbado, até porque sou um entusiasta das tecnologias digitais contemporâneas, no entanto, creio que minha hipótese é que a geração X, talvez, esteja mais consciente dos estragos que os comentários privados em ambientes digitais pessoais podem causar.

É por essas que procuro regrar meus comentários e postagens nas mídias sociais entendendo que mídias pessoais não são mídias privadas.

E você como gerencia suas mídias pessoais?

 

Por:  Dr. Fábio Caim – publicitário, psicanalista, professor universitário (Cásper Líbero e Facamp) e sócio-consultor na Objeto Dinâmico – inteligência de marcas.

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