Em quarentena: confissões de um publicitário isolado e psicanalista

Dr. Fábio Caim – publicitário, psicanalista, professor universitário

Quando a quarentena começou eu pensei: “ufa! Um período em casa será bom, pois estou sempre em trânsito por SP e por outras cidades no Estado e isso me cansa muito” – obviamente, apesar de estar preocupado com o COVID19 eu, como tantos outros, ainda não tinha a real noção da gravidade da situação.

E assim passei do momento de euforia pelo “descanso” forçado para a tristeza da realidade de um trabalho excessivo, que não se esgotava de jeito nenhum dentro do horário comercial, bem como com os números assustadores de mortes misturados com corrupção, com a negação do vírus, com a exaltação de medicamentos milagrosos entre tantas outras situações inusitadas, infelizmente condizentes com o atual cenário brasileiro.

Sendo um dos privilegiados que poderia ficar em casa, eu me coloquei alguns objetivos para o período de quarentena: 1) Fazer algum curso; 2) Desenvolver um projeto pessoal; 3) Meditar; 4) Fazer alguma atividade física indoor; 5) Assistir lives.

Doce ilusão.

Mal dei conta do trabalho que cresceu, bem como das demandas diárias de colegas, alunos e clientes que precisavam de algum tipo de orientação, ajuda, suporte e isso sem computar os afazeres de casa, porém, nesse meio tempo, comprei uma bicicleta e uma corda de pular.

A corda de pular está esquecida em alguma gaveta, a bicicleta na garagem e saí três vezes para andar e ainda sairei mais (só Deus sabe quando). Todavia, em um momento de “iluminação”, meio que impulsionado por um estiramento na região da costela devido a um esforço físico banal, eu entendi que estava tudo bem não fazer o que havia me proposto a fazer; estava tudo bem fazer o que fosse possível apenas.

Toda essa contextualização foi para ilustrar um pouco minha rotina e pensamentos durante esse período, que muito se assemelham a de tantos que passaram e continuam passando pela pandemia em quarentena.

Novamente, assim como eu alguns privilegiados conseguem trabalhar de casa, no entanto, tantos outros são obrigados a se exporem ao COVID19 porque precisam sobreviver, ganhar seu dinheiro, manter o emprego ou mesmo correr atrás de trabalhos. Além disso, reconheço ainda que sou um sortudo, pois nenhum familiar ou amigo próximo contraiu seriamente o COVID19, mas sei que não é o caso de mais de 90 mil famílias (mínimo) que estão lidando com o luto pela perda de algum ente querido.

À rotina de publicitário-consultor e professor universitário, também, se juntou o exercício das competências como psicanalista. Durante esse período, mesmo que não exercendo profissionalmente a atividade de psicanalista, eu fui chamado a respaldar amigos, colegas e alunos com dificuldades para lidar com as exigências de uma mudança tão intensa e tão impactante na vida como um todo.

Para além da solidão que muitos estavam sentido, confesso que eu também senti, várias queixas se somavam a incapacidade de lidar com o terror de um futuro desconhecido, com as demandas crescentes de trabalhos, de parentes, de amigos e com a necessidade de se auto-organizar sem um olhar atento de algum “supervisor”.

Traduzindo, de um momento para outro fomos colocados em um mundo isolado, deixados ao próprio destino sem os antigos controles dos horários fixos, do ponto a bater e do gestor a questionar. O olhar do outro sobre nós se apagou temporariamente, colocando-nos em uma posição de autogestão, ou seja, exigindo verdadeira autonomia.

A autonomia, como pano de fundo, se consolidou como uma grande queixa. Não é fácil ser colocado em um caminho e deixado lá para trilhá-lo sozinho. As grandes instituições que solidificam nosso estado na realidade pareceram se esfacelar – ainda convivemos com ausência de um ministro da saúde -, quer dizer que no contexto macro também fomos emocionalmente deixados sozinhos.

A pandemia continua e incrivelmente estamos voltando ao “normal”, mesmo com 90 mil mortes de brasileiros em decorrência desse vírus. O terror que muitos sentiram não se esgotou, a retomada do “normal” não pressupõe, neste caso, o cancelamento desse contexto terrível. Aos negacionistas, o “normal” deve parecer a salvação, aos demais, que convivem com os fatos compreendendo-os em sua complexidade essa volta, parece uma medida descompassada da realidade.

A nova questão que fica é como voltarmos “normal”, quando o normal não é mais o que conhecíamos, quando o normal nos expõe a um risco real e, muitas vezes, letal?

O fato é que mais enfrentamentos virão, mais demandas por suporte e acolhimento se farão necessárias, por isso é preciso reservar aqueles espaços de sanidade em nossa rotina, encontrar bons lugares para se estar consigo mesmo, sem que sejam aterrorizantes. Eu sei, não é fácil, mas é necessário.

Da minha parte, tenho aprendido como um publicitário isolado e psicanalista que é preciso fazer o possível, sem grandes exigências, sem planejamentos inflexíveis. É preciso aprender a viver com o imponderável e, mais que isso, aceitar que ele fez e faz parte da nossa vida e o que não pode ser previsto, terá que ser vivido de uma forma ou de outra.

 

Por:  Dr. Fábio Caim – publicitário, psicanalista, professor universitário (Cásper Líbero e Facamp) e sócio-consultor na Objeto Dinâmico – inteligência de marcas0

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