A IA pode tornar o design brasileiro cada vez mais parecido?

Jorge Brivilati, cineasta, fotógrafo, fundador e CEO da Bamboo Data, empresa brasileira dedicada à estruturação e ao licenciamento de datasets culturais para inteligência artificial.
LinkedIn
X
Facebook
Threads
WhatsApp

A inteligência artificial já entrou no processo criativo. Designers, publicitários, fotógrafos e profissionais do audiovisual conseguem testar em segundos caminhos que antes exigiam horas de pesquisa, produção e tratamento. É um ganho extraordinário de velocidade e experimentação. Mas essa facilidade traz uma pergunta que me interessa particularmente: à medida que passamos a criar com as mesmas ferramentas, de onde virá aquilo que nos diferencia?

A padronização estética, claro, não nasceu com a inteligência artificial. O design sempre respondeu a escolas, tendências e referências dominantes. Mais recentemente, bancos de imagens, templates, Pinterest, Behance, redes sociais e seus algoritmos também passaram a influenciar aquilo que vemos e, consequentemente, aquilo que produzimos.

A IA acrescenta escala e velocidade a esse processo. Sistemas generativos conseguem recombinar padrões visuais em segundos e disponibilizá-los simultaneamente para milhões de pessoas. É nesse ponto que a direção criativa se torna ainda mais relevante. Repertório, contexto, intenção e capacidade de questionar o resultado continuam sendo decisões humanas.

Um estudo apresentado em 2025 na conferência AAAI/ACM sobre inteligência artificial, ética e sociedade, encontrou assinaturas estéticas próprias em três geradores de imagens. Profissionais conseguiram reconhecer conteúdos produzidos por Flux, Midjourney e Stable Diffusion com índices de acerto entre 71% e 82%. Na mesma pesquisa, realizada com 430 participantes, 71,9% disseram que a integração estratégica da IA ampliava suas capacidades criativas.

As duas constatações podem conviver. Uma ferramenta pode expandir as possibilidades de criação e, ao mesmo tempo, carregar características visuais recorrentes. Isso não demonstra, por si só, que a inteligência artificial esteja homogeneizando o design. Mostra, porém, que os sistemas não são superfícies neutras sobre as quais o criador trabalha. Eles também trazem repertórios, padrões e limitações.

No Brasil, essa discussão ganha uma dimensão cultural importante

É difícil falar em uma única estética brasileira. Somos formados por territórios, povos, arquiteturas, religiões, festas, paisagens, objetos, cores, técnicas e modos de viver muito diferentes. Parte dessa diversidade é conhecida internacionalmente; outra parte sequer circula de maneira significativa no ambiente digital.

Em 2023, pesquisadores brasileiros analisaram imagens de Carnaval, São João, Festa de Iemanjá, Festival de Parintins e Círio de Nazaré geradas pelo Midjourney. O estudo encontrou distorções, simplificações e elementos que não correspondiam adequadamente às manifestações culturais retratadas.

É preciso colocar esse resultado em perspectiva. A pesquisa examinou uma ferramenta específica, em determinado estágio de desenvolvimento. Não podemos transportar suas conclusões automaticamente para todos os modelos disponíveis hoje. Ainda assim, ela levanta uma questão que permanece atual: o que acontece quando uma cultura complexa precisa ser reconstruída por um sistema a partir das referências que conseguiu aprender sobre ela?

Quanto menor ou menos contextualizado for esse repertório, maior pode ser a dependência de símbolos facilmente reconhecíveis. O Brasil corre então o risco de aparecer como uma espécie de resumo visual de si mesmo: Carnaval, floresta, praia, futebol, determinadas cores e alguns marcadores culturais repetidos indefinidamente.

Esse risco também aparece em uma avaliação internacional mais recente. Apresentado na NeurIPS 2024, o benchmark CUBE analisou a capacidade de modelos de geração de imagens de representar aspectos culturais de oito países, entre eles o Brasil, nos campos da culinária, dos pontos de referência e da arte.

Ao comparar sistemas como Imagen 2 e Stable Diffusion XL, os pesquisadores encontraram lacunas relevantes de fidelidade cultural, especialmente nos países do Sul Global. O estudo também concluiu que os modelos ainda estão distantes de representar a amplitude e a diversidade cultural existentes no mundo.

Os resultados não significam que toda imagem gerada sobre o Brasil será estereotipada. Reforçam, porém, que realismo visual e precisão cultural não são a mesma coisa: uma imagem pode parecer convincente e, ainda assim, oferecer uma representação limitada ou imprecisa de determinada cultura.

Para as marcas brasileiras, a questão merece atenção. Identidade visual existe justamente para produzir reconhecimento e diferenciação. Se empresas diferentes começam a recorrer aos mesmos modelos, referências e soluções automáticas sem suficiente direção criativa, eficiência e personalidade podem entrar em conflito.

É aí que o trabalho humano se torna mais exigente, e não menos. Cabe ao profissional escolher referências, rejeitar respostas óbvias, perceber estereótipos, acrescentar contexto e decidir se uma imagem realmente corresponde à história que pretende contar.

A discussão começa muito antes de alguém escrever um prompt

Quem trabalha com imagem sabe que uma fotografia nunca é apenas aquilo que aparece dentro do quadro. Há um lugar, uma época, pessoas e uma história por trás dela. Para um sistema de IA aprender alguma coisa sobre a diversidade brasileira, esse contexto também importa. E nem todas as nossas culturas estão igualmente documentadas ou disponíveis no ambiente digital. Algumas aparecem milhares de vezes; outras, muito pouco. Essa desigualdade acaba fazendo parte do repertório que a tecnologia recebe.

Dados são uma parte dessa equação. Arquitetura dos modelos, métodos de treinamento, filtros, ajustes posteriores e decisões tomadas pelas próprias plataformas também interferem no resultado. Ainda assim, nenhuma tecnologia consegue aprender particularidades culturais que não estejam suficientemente representadas no universo de informação ao qual teve acesso.

É justamente nesse ponto que minha experiência cruza com essa discussão. Trabalhamos com imagens, vídeos e áudios documentados, autorizados, contextualizados e submetidos à curadoria humana para a formação de bases culturais destinadas a sistemas de inteligência artificial. Esse trabalho me fez perceber que diversidade não significa simplesmente aumentar a quantidade de arquivos disponíveis. Procedência, contexto e qualidade da informação associada a cada registro também importam.

Existe ainda uma questão mais ampla que teremos de acompanhar nos próximos anos. A cultura produz os dados que ajudam a formar os modelos. Esses modelos passam a produzir imagens que entram novamente em circulação e começam, elas próprias, a influenciar referências, profissionais e a cultura visual. Quanto maior for a presença de conteúdo sintético nesse circuito, mais importante será entender que padrões estamos reforçando.

Não sabemos ainda qual será a dimensão desse efeito sobre o design brasileiro. Seria precipitado afirmar que a IA necessariamente produzirá homogeneização. Também seria ingênuo imaginar que ferramentas usadas por milhões de pessoas não terão nenhuma influência sobre nossa linguagem visual.

A inteligência artificial já participa do futuro do design brasileiro. A questão agora é saber que repertório colocaremos dentro dessas máquinas e que repertório continuaremos cultivando fora delas. Se ensinarmos aos sistemas uma versão estreita da nossa diversidade, não deveria nos surpreender que eles nos devolvam um Brasil cada vez mais parecido consigo mesmo.

*Por: Jorge Brivilati, cineasta, fotógrafo, fundador e CEO da Bamboo Data, empresa brasileira dedicada à estruturação e ao licenciamento de datasets culturais para inteligência artificial.

LinkedIn
X
Facebook
Threads
WhatsApp
Ford renova identidade da Motorcraft

Ford renova identidade da Motorcraft

A Ford renovou a identidade visual da Motorcraft, sua marca de autopeças, e anunciou uma mudança também para a Omnicraft. A linha destinada a veículos de outras montadoras passará a usar o nome Motorcraft. A atualização mantém o nome Motorcraft em letras brancas sobre fundo vermelho, mas adota uma nova

OOH brasileiro conquista nove troféus no Prêmio ALOOH 2026

Empresas associadas à Central de Outdoor conquistaram nove troféus no Prêmio ALOOH 2026, realizado durante o Foro ALOOH LATAM, em Lima, no Peru. Os trabalhos premiados incluem projetos para marcas como Cheetos, Lay’s, CazéTV e MedSênior, além da Maratona do Rio. Promovido pela Associação Latino-Americana de Out of Home (ALOOH),

Barbie ganha coleção de semijoias em parceria com a Misha

Barbie ganha coleção de semijoias em parceria com a Misha

Barbie e Misha, marca de semijoias da empresária e influenciadora Mica Rocha, criaram uma coleção inspirada no universo da boneca. Com o conceito “Seu mundo Barbie, seu jeito Misha”, a parceria leva referências da personagem para diferentes tipos de acessórios. A coleção reúne brincos, pulseiras, colares, anel, piercing e pingentes,

Histórias de torcedores, jogadores e moradores ligados ao Grêmio Osasco Audax serviram de inspiração para um uniforme de edição limitada criado por meio de uma iniciativa da Lenovo. Batizada de “12º Jogador”, a peça faz referência à torcida e incorpora elementos relacionados à identidade, às tradições e aos bairros de origem de jogadores do clube. O uniforme faz parte do Your Club Your Canvas, iniciativa da Lenovo dentro da plataforma Work For Humankind. O projeto foi desenvolvido com Becky G, embaixadora global da iniciativa, cantora e investidora do Angel City FC, e teve direção criativa de Heloisa Hariadne. Segundo a Lenovo, os lucros das vendas serão reinvestidos no Audax para apoiar as seletivas realizadas pelo clube nas comunidades de São Paulo e criar oportunidades para jovens por meio do esporte. “O futebol pode criar oportunidades para muitos, e é nessa oportunidade que estamos focados em construir no Audax”, disse Gustavo Teixeira, principal investidor do Grêmio Osasco Audax. “Trabalhamos sempre para desenvolver jovens jogadores e futuros talentos, ao mesmo tempo em que criamos um espaço seguro e cheio de vida, ao qual todos pertencem. O uniforme do 12º jogador realmente captura a resiliência, a esperança e a ambição que os jogadores e a comunidade levam para o campo.” Comunidade participa do processo criativo O desenvolvimento do uniforme reuniu torcedores, jogadores, moradores locais e Heloisa Hariadne. Conversas, experiências em dias de jogo e histórias da comunidade ajudaram a definir elementos do design. Durante o processo, Heloisa utilizou dispositivos da Lenovo e da Motorola e recursos de inteligência artificial. Um Motorola Razr Fold com moto AI foi usado para registrar pessoas, momentos e a atmosfera ao redor do Audax. Os esboços foram desenvolvidos em um Lenovo Yoga Tab Plus, enquanto o design final foi refinado em um Yoga Pro 9i Aura Edition. “O futebol sempre foi sobre as pessoas”, disse Becky G, embaixadora global da iniciativa. “É sobre as comunidades, tradições e experiências compartilhadas que unem os torcedores. O que mais amo nesses uniformes é que eles não foram projetados para as comunidades — foram projetados com elas. Eles refletem um orgulho e um pertencimento que vão muito além do jogo.” Audax encerra iniciativa realizada em quatro países O Audax marca a etapa final do Work For Humankind: Your Club Your Canvas, realizado em clubes de futebol comunitários no Brasil, China, Itália e Estados Unidos. A iniciativa inseriu diretores criativos nesses clubes para desenvolver peças inspiradas nas histórias e identidades de suas comunidades, com apoio da tecnologia. “A cultura começa com as pessoas”, disse Emily Ketchen, SVP e diretora executiva de Marketing (CMO) do Intelligent Devices Group e Mercados Internacionais da Lenovo. “Nosso papel é ajudar os criadores a transformarem ideias em algo real. O que você vê nestes uniformes do 12º Jogador é muito mais do que um design. São as histórias, tradições e o orgulho de toda uma comunidade entrelaçados em algo que as pessoas podem vestir. Quando a tecnologia apoia a criatividade, ela pode ajudar as comunidades a celebrarem quem são e a compartilhar essa identidade com o mundo.” O uniforme de edição limitada está disponível para compra online. Segundo a Lenovo, os lucros das vendas serão reinvestidos no Audax para apoiar as seletivas do clube nas comunidades de São Paulo.

Torcida do Audax inspira uniforme criado em projeto da Lenovo

Histórias de torcedores, jogadores e moradores ligados ao Grêmio Osasco Audax serviram de inspiração para um uniforme de edição limitada criado por meio de uma iniciativa da Lenovo. Batizada de “12º Jogador”, a peça faz referência à torcida e incorpora elementos relacionados à identidade, às tradições e aos bairros de

Acelerado por ecommerce.CAMP/portais Portais de alta performance com IA que aprendem a cada visita,
indexados e otimizados para SEO, GEO e LLMs, em piloto automático.