A inteligência artificial já entrou no processo criativo. Designers, publicitários, fotógrafos e profissionais do audiovisual conseguem testar em segundos caminhos que antes exigiam horas de pesquisa, produção e tratamento. É um ganho extraordinário de velocidade e experimentação. Mas essa facilidade traz uma pergunta que me interessa particularmente: à medida que passamos a criar com as mesmas ferramentas, de onde virá aquilo que nos diferencia?
A padronização estética, claro, não nasceu com a inteligência artificial. O design sempre respondeu a escolas, tendências e referências dominantes. Mais recentemente, bancos de imagens, templates, Pinterest, Behance, redes sociais e seus algoritmos também passaram a influenciar aquilo que vemos e, consequentemente, aquilo que produzimos.
A IA acrescenta escala e velocidade a esse processo. Sistemas generativos conseguem recombinar padrões visuais em segundos e disponibilizá-los simultaneamente para milhões de pessoas. É nesse ponto que a direção criativa se torna ainda mais relevante. Repertório, contexto, intenção e capacidade de questionar o resultado continuam sendo decisões humanas.
Um estudo apresentado em 2025 na conferência AAAI/ACM sobre inteligência artificial, ética e sociedade, encontrou assinaturas estéticas próprias em três geradores de imagens. Profissionais conseguiram reconhecer conteúdos produzidos por Flux, Midjourney e Stable Diffusion com índices de acerto entre 71% e 82%. Na mesma pesquisa, realizada com 430 participantes, 71,9% disseram que a integração estratégica da IA ampliava suas capacidades criativas.
As duas constatações podem conviver. Uma ferramenta pode expandir as possibilidades de criação e, ao mesmo tempo, carregar características visuais recorrentes. Isso não demonstra, por si só, que a inteligência artificial esteja homogeneizando o design. Mostra, porém, que os sistemas não são superfícies neutras sobre as quais o criador trabalha. Eles também trazem repertórios, padrões e limitações.
No Brasil, essa discussão ganha uma dimensão cultural importante
É difícil falar em uma única estética brasileira. Somos formados por territórios, povos, arquiteturas, religiões, festas, paisagens, objetos, cores, técnicas e modos de viver muito diferentes. Parte dessa diversidade é conhecida internacionalmente; outra parte sequer circula de maneira significativa no ambiente digital.
Em 2023, pesquisadores brasileiros analisaram imagens de Carnaval, São João, Festa de Iemanjá, Festival de Parintins e Círio de Nazaré geradas pelo Midjourney. O estudo encontrou distorções, simplificações e elementos que não correspondiam adequadamente às manifestações culturais retratadas.
É preciso colocar esse resultado em perspectiva. A pesquisa examinou uma ferramenta específica, em determinado estágio de desenvolvimento. Não podemos transportar suas conclusões automaticamente para todos os modelos disponíveis hoje. Ainda assim, ela levanta uma questão que permanece atual: o que acontece quando uma cultura complexa precisa ser reconstruída por um sistema a partir das referências que conseguiu aprender sobre ela?
Quanto menor ou menos contextualizado for esse repertório, maior pode ser a dependência de símbolos facilmente reconhecíveis. O Brasil corre então o risco de aparecer como uma espécie de resumo visual de si mesmo: Carnaval, floresta, praia, futebol, determinadas cores e alguns marcadores culturais repetidos indefinidamente.
Esse risco também aparece em uma avaliação internacional mais recente. Apresentado na NeurIPS 2024, o benchmark CUBE analisou a capacidade de modelos de geração de imagens de representar aspectos culturais de oito países, entre eles o Brasil, nos campos da culinária, dos pontos de referência e da arte.
Ao comparar sistemas como Imagen 2 e Stable Diffusion XL, os pesquisadores encontraram lacunas relevantes de fidelidade cultural, especialmente nos países do Sul Global. O estudo também concluiu que os modelos ainda estão distantes de representar a amplitude e a diversidade cultural existentes no mundo.
Os resultados não significam que toda imagem gerada sobre o Brasil será estereotipada. Reforçam, porém, que realismo visual e precisão cultural não são a mesma coisa: uma imagem pode parecer convincente e, ainda assim, oferecer uma representação limitada ou imprecisa de determinada cultura.
Para as marcas brasileiras, a questão merece atenção. Identidade visual existe justamente para produzir reconhecimento e diferenciação. Se empresas diferentes começam a recorrer aos mesmos modelos, referências e soluções automáticas sem suficiente direção criativa, eficiência e personalidade podem entrar em conflito.
É aí que o trabalho humano se torna mais exigente, e não menos. Cabe ao profissional escolher referências, rejeitar respostas óbvias, perceber estereótipos, acrescentar contexto e decidir se uma imagem realmente corresponde à história que pretende contar.
A discussão começa muito antes de alguém escrever um prompt
Quem trabalha com imagem sabe que uma fotografia nunca é apenas aquilo que aparece dentro do quadro. Há um lugar, uma época, pessoas e uma história por trás dela. Para um sistema de IA aprender alguma coisa sobre a diversidade brasileira, esse contexto também importa. E nem todas as nossas culturas estão igualmente documentadas ou disponíveis no ambiente digital. Algumas aparecem milhares de vezes; outras, muito pouco. Essa desigualdade acaba fazendo parte do repertório que a tecnologia recebe.
Dados são uma parte dessa equação. Arquitetura dos modelos, métodos de treinamento, filtros, ajustes posteriores e decisões tomadas pelas próprias plataformas também interferem no resultado. Ainda assim, nenhuma tecnologia consegue aprender particularidades culturais que não estejam suficientemente representadas no universo de informação ao qual teve acesso.
É justamente nesse ponto que minha experiência cruza com essa discussão. Trabalhamos com imagens, vídeos e áudios documentados, autorizados, contextualizados e submetidos à curadoria humana para a formação de bases culturais destinadas a sistemas de inteligência artificial. Esse trabalho me fez perceber que diversidade não significa simplesmente aumentar a quantidade de arquivos disponíveis. Procedência, contexto e qualidade da informação associada a cada registro também importam.
Existe ainda uma questão mais ampla que teremos de acompanhar nos próximos anos. A cultura produz os dados que ajudam a formar os modelos. Esses modelos passam a produzir imagens que entram novamente em circulação e começam, elas próprias, a influenciar referências, profissionais e a cultura visual. Quanto maior for a presença de conteúdo sintético nesse circuito, mais importante será entender que padrões estamos reforçando.
Não sabemos ainda qual será a dimensão desse efeito sobre o design brasileiro. Seria precipitado afirmar que a IA necessariamente produzirá homogeneização. Também seria ingênuo imaginar que ferramentas usadas por milhões de pessoas não terão nenhuma influência sobre nossa linguagem visual.
A inteligência artificial já participa do futuro do design brasileiro. A questão agora é saber que repertório colocaremos dentro dessas máquinas e que repertório continuaremos cultivando fora delas. Se ensinarmos aos sistemas uma versão estreita da nossa diversidade, não deveria nos surpreender que eles nos devolvam um Brasil cada vez mais parecido consigo mesmo.
*Por: Jorge Brivilati, cineasta, fotógrafo, fundador e CEO da Bamboo Data, empresa brasileira dedicada à estruturação e ao licenciamento de datasets culturais para inteligência artificial.