Till – A busca por Justiça, crítica de Pedro Dourado

Confira a crítica do filme "Till - A busca por Justiça", nova produção da Universal Pictures, dirigida pela nigeriana Chinonye Chukwu.
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Em março de 2022, o presidente dos EUA Joe Biden assinou a primeira lei que considera o linchamento um crime de ódio federal. A lei era um pedido de grupos de direitos civis há mais de um século, surgindo após um caso que chocou o país: o do covarde assassinato do garoto de 14 anos Emmett Till, cuja lei leva o seu nome. O acontecimento foi uma das causas para o surgimento e empoderamento de importantes movimentos pelos direitos civis e chamou a atenção do país inteiro para a violência contra afro-americanos. Um ano depois da assinatura da importante, porém assustadoramente tardia, lei Emmett Till, a produção Till, dirigida pela nigeriana Chinonye Chukwu, chega aos cinemas com a importante missão de contar ao mundo sobre o revoltante acontecimento, que culminou no surgimento de uma grande líder e figura do movimento.

No longa produzido pela Universal Pictures, somos apresentados a Emmett e Mamie Till, interpretados por Jalyn Hall e Danielle Deadwyler (grande estrela e destaque da produção). Enquanto a mãe trabalha em Chicago, o filho parte em viagem para Greenwood, uma cidade no Mississipi, para visitar a família. Após elogiar e assobiar para uma mulher branca, o garoto é sequestrado e encontrado mutilado após seu desaparecimento. O caso chega até sua mãe, que em desespero e sedenta por justiça, expõe o caso ao país inteiro, para conseguir provocar um julgamento contra os assassinos. Porém, conforme o episódio vai escancarando injustiças, descaso das autoridades, e inúmeros casos de racismo dentro do julgamento, Mamie vai percebendo a importância e urgência de se envolver cada vez mais com os movimentos civis em defesa de pessoas negras. 

Segundo dados da ONG Justiça Igualitária (EJI), estima-se que entre os anos 1877 e 1950 cerca de 4,4 mil pessoas foram linchadas nos Estados Unidos. A maioria desses linchamentos foi de pessoas negras. Segundo os mesmos dados, a proporção chegou a 17 pessoas negras para cada pessoa branca vítima de linchamento no país, e a isso se deve a importância dessa impactante história ser contada. O filme utiliza 27 anos de pesquisas do diretor de cinema e investigador Keith Beauchamp, cujos esforços levaram à reabertura do caso de Emmett Till pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos no ano de 2004. Beauchamp chegou a produzir um documentário sobre o caso em 2005, nomeado “The Untold Story of Emmett Louis Till”.

No longa de 2023, vemos que o principal argumento, e sua maior intenção, é mostrar a ascensão de Mamie Till-Bradley, mãe de Emmett Till, no movimento dos direitos civis dos negros, mostrando sua transformação e decisão de fazer a diferença após sua grande perda, uma injustiça que até pouco tempo não era tratada como o absurdo que foi.  O grande destaque da produção fica para a marcante interpretação de Danielle Deadwyler, seja na introdução do filme, demonstrando alegria e apego ao filho, ou nos momentos de sofrimento e seriedade que a personagem passa a partir do segundo ato, que carrega verdade em seu retrato, levando ao público as súplicas de uma mãe em sofrimento, até se transformar em uma importante e decidida figura para a luta de tantas pessoas. 

Porém, o filme perde forças ao não conseguir transmitir essa transformação de forma orgânica. E essa artificialidade causa a sensação de estarmos diante de dois temas distintos, tirando o peso que a narrativa deveria ter ao retratar um acontecimento tão importante. Apesar do “primeiro tema” – o linchamento do garoto de 14 anos – ter a capacidade de chocar, e o “segundo” – a ascensão da mãe em prol do movimento – de demonstrar o poder dessa figura tão icônica, as duas partes acabam se tornando desconexas no longa, tirando o peso necessário para o desenrolar da história. 

Embora seja muito correta e passe com eficiência ao público essa importante história real, a direção do filme erra no desenvolvimento do tema, desperdiçando a espantosa atuação de Danielle Deadwyler e a oportunidade de contar a chocante história de forma fluida e natural. Ora a narrativa busca nos mostrar o sofrimento da mãe, ora lembra, de última hora, sobre a luta que a personagem está prestes a entrar. Não há um balanço e nem uma conexão devida entre os temas no longa. Apesar disso, o filme é tremendamente eficiente ao nos fazer acompanhar o sofrimento da mãe e da comunidade durante o processo, em cenas fortes e capazes de emocionar e também de indignar.

Ao final, testemunhamos uma cena completamente poderosa – porém extremamente deslocada -, que mostra a mãe em um discurso, já transformada na ativista tão marcante que o mundo conheceu e tardiamente passou a admirar. A cena marca e mostra o grande trunfo do longa, a personificação brutal e real de Mamie Till. Infelizmente, como essa transição entre uma mãe que apenas luta por seu filho e por sua casa para uma poderosa representante ativista acaba sendo artificial. Em suma, o filme faz um bom feijão com arroz contando um acontecimento que não pode ser esquecido. Entretanto, a história de Emmet e Mamie Till merecia mais do que isso.

Por: Pedro Dourado

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