O valor da execução e do craft na era dos algoritmos

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Segunda-feira. Coloco no carrinho do supermercado a rotina ideal que eu já deveria estar comendo: iogurte sem açúcar, frutas, torradinhas e o clássico saquinho de alface lavada. Em casa, após um dia exaustivo de trabalho, a realidade atropela o planejamento: abro o aplicativo e peço uma pizza.

Eu só queria que o mundo racional aceitasse a minha intenção. Mas o mercado — e a vida — não dão bônus por tentativa. Tudo é ação. Todo vagão de metrô está lotado de ótimas intenções e de pessoas com talentos submersos. E é exatamente por isso que o saquinho de alface ficou fechado e estragou na segunda prateleira da geladeira.

O apaixonado procrastina a intensidade. Muitas vezes, querer demais alguma coisa nos traz o medo paralisante da execução. Isso acontece no processo criativo quase o tempo todo. Se você discorda disso, parabéns, o seu coach de autoconfiança fez um bom trabalho. Mas a verdade do set é outra. Esse mecanismo é antigo: é por isso que aquele encontro que você tanto deseja dá frio na barriga. É por isso que você decide pular de paraquedas, se apaixona perdidamente pela ideia abstrata, mas, já dentro do avião, deixa de amar o salto. Você pula só para manter sua coragem socialmente intacta, mas não queria aquilo de verdade.

O mundo não valida intenção. A tela do cinema e o intervalo comercial também não.

O desejo de transmitir uma sensação não se concretiza apenas no roteiro. É preciso saber espremer um enquadramento em close-up para sufocar o espectador, ou abrir a lente em um plano geral para mudar o ritmo da sua respiração. É a escolha da textura da luz, o milissegundo exato do corte na montagem, o desenho de som que dita o batimento cardíaco de quem assiste. Detalhes básicos do craft que, na pressa do dia a dia, às vezes deixam de ser praticados.

Em um mercado cercado de peças interativas, algoritmos e discussões burocráticas sobre “quem fez esse filme para quem”, a gente acaba se esquecendo do motivo pelo qual ainda chamamos filmes publicitários e conteúdos de filmes. Cinema é a arte da imagem em movimento que gera impacto sensorial e emocional. Produzir é, por definição, pegar a intenção e moldá-la em forma de ação física. O tempo todo, nós, como produtoras, buscamos soluções visuais para que o conceito da agência ganhe peso, cor e verdade. Executar, aqui, não é apenas entregar um arquivo no prazo; é garantir que a mensagem de fato transpasse a tela e toque o público.

E é aqui que mora o nosso maior perigo atual: precisamos tomar muito cuidado para que o filme feito por Inteligência Artificial não vire o novo saquinho de alface lavada da publicidade.

A IA gera imagens lindas em segundos, aceita qualquer comando e entrega toneladas de “boas intenções” visuais em alta resolução. O prompt está ali, pronto, na segunda prateleira da geladeira. Mas se o filme não tiver alma, se faltar a sensibilidade humana do olhar do diretor, o ritmo orgânico do storytelling e o suor do craft cinematográfico, ele continuará sendo apenas plástico tecnológico. Bonito de ver na vitrine, mas que ninguém vai consumir. No final das contas, ele vai apodrecer na geladeira do consumidor da mesma forma.

Por Bruno Maffei, diretor de cena da Ilha Crossmídia

Leia outras notícias: https://marcaspelomundo.com.br/categorias/anunciantes/

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