Não falta gente. Falta estrutura

Silvio Soledade é sócio da PlanoGestão Consultoria, VP de Mercados Regionais da APP Brasil e VP Financeiro da ANAMID
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O mercado não sofre com escassez de talento, mas com um modelo que dificulta formar, reter e desenvolver pessoas. O mercado de comunicação, publicidade e audiovisual se acostumou a repetir que falta mão de obra qualificada. A frase virou padrão. Está nas agências, nas produtoras, nos sets. Mas talvez o problema seja outro, e bem menos confortável de admitir.

Quando olhamos para a realidade do setor, especialmente nas pequenas e médias empresas, o que aparece não é escassez de talento. É falta de estrutura. Falta RH organizado, trilha de desenvolvimento, onboarding. O que existe é entrega, prazo e pressão. E, nesse contexto, a expectativa vira uma só: contratar alguém pronto.

O problema é que todo mundo quer alguém pronto. Pouca gente está formando. E o mercado entra em curto. Pesquisa do Instituto PROA ajuda a dar nome a esse desencontro. O PROA é uma organização que prepara jovens de baixa renda para o mercado de trabalho e os conecta com empresas. Ao ouvir jovens e empregadores, a pesquisa mostra que o desafio da empregabilidade não é apenas técnico. Ele é estrutural, simbólico e relacional.

No nosso setor, isso é ainda mais evidente. Comunicação vive de repertório, leitura de contexto e linguagem. Nada disso é ensinado de forma estruturada. Aprende-se na prática, na convivência, na pressão. Funciona para quem já está dentro. Para quem está fora, é um sistema fechado.

E aí nasce um desalinhamento que o mercado insiste em tratar como falha individual. Muitos jovens querem trabalhar, querem construir carreira, mas não dominam os códigos do setor. O mercado lê isso como falta de preparo. Na prática, é falta de tradução.

Só que existe uma camada que a gente evita encarar. Mesmo quando o jovem consegue entrar, a conta muitas vezes não fecha. Salários baixos, contratos frágeis, pejotização como regra. Para quem está começando, isso significa assumir risco sem estrutura, trabalhar sem previsibilidade e, muitas vezes, sem perspectiva clara de evolução. Isso muda tudo.

Quando a lógica é sobreviver, não existe espaço para construir carreira. Não existe vínculo. Não existe permanência. E o mercado olha para a rotatividade e conclui que o jovem não quer ficar. Mas a pergunta é outra: ficar onde, exatamente? Em que condição? Com qual perspectiva?

No audiovisual, projetos curtos e intermitentes. Na publicidade, relações PJ que operam como CLT sem proteção. E, ainda assim, o setor cobra engajamento, senso de dono, alinhamento cultural.

Existe um desalinhamento claro. E ele não começa apenas dentro das empresas. Começa na forma como a cadeia inteira se organiza: prazos cada vez mais curtos, demandas simultâneas, mudanças no meio do caminho e pagamentos cada vez mais longos.

Essa equação pressiona tudo. E quando o tempo encurta e o dinheiro demora, a primeira coisa que desaparece é a capacidade de formar. O foco vira entregar. Sobreviver. Fechar o mês.

E seguimos discutindo desenvolvimento de pessoas em um sistema que não sustenta nem o básico. Ao mesmo tempo, falamos de diversidade e inclusão. Mas existe uma barreira silenciosa: quem pode aceitar ganhar menos para aprender entra. Quem precisa pagar conta, muitas vezes, fica de fora. Isso reduz diversidade real, limita repertório e empobrece o próprio mercado. E ainda assim seguimos dizendo que falta gente.

Talvez esteja na hora de ajustar a pergunta. O problema não é falta de mão de obra. É um modelo que combina pouca estrutura de formação, baixa remuneração inicial, relações frágeis de trabalho e uma cadeia pressionada por prazos curtos e pagamentos longos, e ainda assim espera retenção, engajamento e evolução rápida. Mas como mudar isso? Se a base do setor está nas pequenas e médias empresas, a construção dessa ponte precisa ser coletiva. E aqui o papel da Associação de Profissionais de Propaganda (APP Brasil) ganha relevância ao conectar mercado e formação.

Mas a APP não opera sozinha. Depende do mercado. De tempo, investimento e participação real. Não basta defender a formação no discurso. É preciso entrar no jogo. Porque formar gente não é responsabilidade de um lado só. Talento existe. E existe muito. O que falta não é gente. É decisão.

Por: Silvio Soledade é sócio da PlanoGestão Consultoria, VP de Mercados Regionais da APP Brasil e VP Financeiro da ANAMID

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