Presidir um júri em Cannes Lions é uma experiência reservada a poucos profissionais da indústria criativa mundial. Em 2026, Rafael Gil, CCO da Artplan e do Grupo Dreamers, assumiu pela primeira vez essa responsabilidade ao comandar os trabalhos da categoria Industry Craft. A missão colocou o brasileiro no centro das discussões sobre excelência criativa justamente em um momento em que a inteligência artificial domina boa parte das conversas da publicidade global.
Em entrevista ao Marcas pelo Mundo, durante o festival, Gil fez um balanço da experiência inédita, compartilhou os principais aprendizados das sessões de julgamento e refletiu sobre um dos movimentos que mais chamaram sua atenção nesta edição: enquanto a inteligência artificial domina as conversas da indústria, foram justamente os trabalhos marcados pela sensibilidade humana que mais despertaram a atenção do júri.
Para ele, liderar um grupo formado por profissionais de diferentes culturas e mercados foi um desafio intenso, mas também uma oportunidade de aprendizado. “Intenso, de fato, é a melhor palavra para resumir como foi essa experiência. Eu tive ali, ao meu lado, um time de jurados incríveis. Tivemos várias discussões legais e é muito bom quando, mesmo sendo pessoas de diferentes lugares do mundo, estamos falando a mesma língua, que é a paixão pela nossa profissão.”
O craft além da tecnologia
Antes mesmo de chegar na Riviera Francesa, Rafael Gil acreditava que encontraria uma edição fortemente marcada pelo avanço da inteligência artificial e por projetos em que a tecnologia ocuparia o protagonismo. A expectativa, no entanto, deu lugar a uma percepção diferente durante os dias de julgamento.
Na avaliação do executivo, os trabalhos mais consistentes da categoria Industry Craft evidenciaram um movimento de valorização da criatividade humana, do cuidado na execução e da sensibilidade capaz de dar significado às ideias. Mais do que o domínio das ferramentas, foram a intenção criativa e a capacidade de provocar emoção que passaram a pesar nas decisões do júri.
“No final das contas, o que vai diferenciar, quando todos os competidores têm o mesmo nível de excelência, são as ideias, a emoção e o impacto que essas ideias causam na vida das pessoas”
A análise acompanha uma das principais reflexões desta edição do Cannes Lions. Em um momento em que ferramentas de inteligência artificial se tornam cada vez mais acessíveis, a diferenciação deixa de estar apenas na tecnologia e passa a depender, sobretudo, da capacidade de construir narrativas relevantes e gerar impacto real nas pessoas.
Mais um ano de reconhecimento para a Artplan
Enquanto presidia uma das categorias do festival, Rafael Gil também acompanhava outro motivo de comemoração. A Artplan conquistou 1 Grand Prix, 1 Leão de Prata e 1 Leão de Bronze no Cannes Lions 2026.
A Artplan voltou a conquistar reconhecimento internacional com campanhas que já vinham acumulando prêmios nos últimos anos. Entre elas está “Nigrum Corpus”, criada pela agência para a Idomed e Instituto Yduqs, trabalho que voltou a subir ao palco com a conquista de um dos prêmios mais cobiçados e difíceis do festival, o Grand Prix de Glass e, ainda, ganhou um Leão de Bronze em Creative Data. Além disso, a campanha estampou a comunicação visual dos corredores do Palais des Festivals.
Amazônia Live – Book, desenvolvido pela Artplan para a Vale, conquistou Prata em Industry Craft (Art Direction) ao transformar a riqueza e a diversidade da floresta amazônica em uma obra editorial. Desdobramento do espetáculo realizado em um palco flutuante no Rio Guamá e da exposição apresentada no Museu de Arte do Rio (MAR), o projeto deu origem a um livro de 700 páginas que reúne mais de 45 artistas e cerca de 30 linguagens visuais em uma narrativa concebida como um sistema artístico vivo. Reconhecido pela excelência em direção de arte, o trabalho utiliza o design editorial para oferecer uma experiência imersiva sobre a Amazônia, conectando cultura, arte e preservação ambiental em um registro permanente desse projeto.
Já Re-Commerce Atacama, criada pela Artplan para VTEX, Desierto Vestido e Fashion Revolution Brasil, conquistou 1 Bronze em Social & Creator ao enfrentar um dos maiores símbolos do impacto ambiental da indústria da moda: o descarte de toneladas de roupas no Deserto do Atacama. A campanha transformou peças abandonadas em um grande marketplace digital, permitindo que consumidores adquirissem roupas descartadas pagando apenas os custos de recuperação e envio. Ao utilizar a infraestrutura de comércio eletrônico para dar uma nova vida a itens que seriam desperdiçados, o projeto combinou economia circular, tecnologia e ativismo ambiental, chamando a atenção para os efeitos do consumo excessivo e mostrando como o e-commerce pode fazer parte da solução para reduzir o desperdício têxtil.
Para Gil, o resultado reforça um trabalho consistente de construção criativa desenvolvido pela agência ao longo dos últimos anos.
O principal prêmio não cabe em um Leão
Depois de encerrar sua participação como presidente de júri e celebrar mais um ciclo de reconhecimento internacional da Artplan, Rafael Gil afirma que o maior legado desta edição não está apenas nos troféus conquistados.
O contato diário com profissionais de diferentes países, a troca de experiências e a oportunidade de acompanhar de perto a produção criativa mundial são, para ele, os aspectos mais valiosos da passagem por Cannes.
Em uma edição marcada por discussões sobre inteligência artificial, novas tecnologias e o futuro da criatividade, Rafael Gil deixa Cannes com uma convicção fortalecida: por mais sofisticadas que sejam as ferramentas, são as ideias, a emoção e a capacidade humana de criar conexões que continuam definindo os trabalhos que permanecem na memória da indústria.
A cobertura do Marcas pelo Mundo no Cannes Lions 2026 é patrocinada por RECORD Ads, Artplan, Central de Outdoor, GUT e Peralta Creatives.