No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, reunimos histórias de profissionais que vêm construindo trajetórias marcadas por liderança, propósito e capacidade de transformação. Em diferentes áreas e contextos, elas compartilham desafios, aprendizados e reflexões sobre carreira, tomada de decisão e o caminho para ampliar a presença feminina nos espaços de liderança.
Sandra Martinelli, CEO da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) e membro do Executive Committee da World Federation of Advertisers (WFA), é uma dessas profissionais. Com mais de quatro décadas de experiência no mercado de marketing, comunicação e publicidade, construiu uma trajetória marcada pela atuação em grandes empresas, agências e entidades do setor.
Graduada em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas, com pós-graduação em Propaganda e Marketing pela ESPM e MBA pela Fundação Dom Cabral, Sandra iniciou sua carreira como trainee na Dow Chemical, no Guarujá. Ao longo dos anos, ocupou posições de liderança em algumas das principais empresas e agências do país, como Ogilvy, Unibanco, Santander e Grey, acumulando experiência na gestão de marcas, comunicação integrada e estratégias de marketing.
Desde 2014, está à frente da ABA, onde lidera iniciativas voltadas ao fortalecimento do marketing responsável, à evolução das práticas do setor e ao desenvolvimento da indústria de comunicação no Brasil. Também integra o Executive Committee da WFA, entidade global que reúne organizações de anunciantes de diversos países e atua na promoção de boas práticas para o marketing em escala internacional.
Um desafio que te transformou
Ao longo da carreira, Sandra enfrentou diferentes desafios, mas um dos mais marcantes foi aprender a ocupar espaços historicamente dominados por homens.
“Ao longo da minha carreira enfrentei muitos desafios, mas um dos mais marcantes foi aprender a ocupar espaços que, por muito tempo, eram predominantemente masculinos. Quando comecei minha trajetória profissional, primeiro como trainee na Dow Chemical e depois trabalhando em comunicação e marketing, em agências de publicidade e bancos, muitas vezes eu era a única mulher em reuniões importantes ou em mesas de decisão. Isso exigia não apenas preparo técnico, mas também confiança e resiliência para defender ideias e assumir responsabilidades. Ao longo da minha trajetória fui percebendo que não se tratava apenas de conquistar um espaço para mim, mas também de ajudar a transformar o ambiente corporativo de forma mais ampla.
Cada mulher que chega a uma posição de liderança ajuda a tornar esse caminho um pouco mais natural para as próximas. Essa consciência foi algo que transformou profundamente a forma como passei a enxergar minha carreira: não apenas como uma trajetória individual, mas como parte de um processo coletivo de evolução.
E, apesar das barreiras persistentes – provar duas vezes mais sua capacidade, viés inconsciente, falta de equidade salarial e ambientes pouco inclusivos –, mulheres líderes estão abrindo caminhos. Muitas delas vêm justamente do marketing, área historicamente mais aberta à diversidade e à inovação e algumas assumindo o comando de lideranças inteiras. E esse movimento não é apenas uma questão de diversidade, mas de resultado comprovados.
Por isso, equidade de gênero não pode ser uma luta somente das mulheres, mas uma responsabilidade de todos. Homens em cargos de liderança precisam ser aliados ativos dessa transformação. Só assim vamos acelerar o ritmo da mudança. Fico feliz de ver esse cenário mudando gradualmente, mas ainda exige atenção e compromisso de todos nós.”
Um aprendizado que você gostaria de ter ouvido antes
Ao refletir sobre sua trajetória, Sandra destaca a importância de confiar mais em si mesma e aceitar desafios mesmo quando ainda não se sente totalmente pronta.
“Um aprendizado que eu gostaria de ter ouvido mais cedo é que não precisamos esperar nos sentir completamente prontas para aceitar novos desafios.
Durante muito tempo, muitas mulheres foram educadas a acreditar que precisam dominar todos os aspectos de uma função antes de dar o próximo passo. Existe uma cobrança muito grande, e muitas vezes invisível, para que as mulheres provem continuamente sua competência antes de ocupar novos espaços.
Com o tempo, fui entendendo que essa sensação de ‘precisar estar 100% pronta’ não é apenas uma característica individual, mas também reflexo de estruturas e expectativas que historicamente exigiram mais das mulheres para que elas fossem reconhecidas.
A vida profissional me ensinou que o crescimento muitas vezes acontece justamente quando aceitamos desafios que parecem maiores do que imaginávamos. Muitas vezes é o próprio desafio que revela a nossa força, amplia nossas habilidades e nos faz perceber que éramos capazes muito antes de acreditar nisso.
Hoje procuro compartilhar muito esse aprendizado com outras mulheres: confiar mais em si mesmas, aceitar oportunidades mesmo quando o caminho ainda não parece totalmente claro e entender que ocupar espaços também é uma forma de abrir portas para que outras mulheres venham depois.
Olhar para trás e perceber quantas experiências importantes surgiram exatamente nesses momentos de transição é algo que reforça a importância de confiar mais em nossas próprias capacidades.”
Um conselho para quem está começando
Para as mulheres que estão iniciando suas carreiras, Sandra acredita que curiosidade e coragem são qualidades essenciais.
“Para as mulheres que estão iniciando suas trajetórias profissionais, eu diria que duas qualidades são especialmente importantes: curiosidade e coragem.
Curiosidade para aprender continuamente, para entender as transformações do mundo, as mudanças no comportamento das pessoas e o papel cada vez mais relevante das marcas na sociedade. O mercado muda rapidamente, e quem mantém uma postura aberta ao aprendizado consegue evoluir junto com essas mudanças.
A coragem também é fundamental. Coragem para se posicionar, para compartilhar ideias e para construir uma trajetória própria. Nenhuma carreira é construída sozinha, e por isso acredito muito no valor das relações profissionais baseadas em respeito, colaboração e troca de conhecimento.”
Um momento em que você percebeu sua própria força
Ao longo da trajetória profissional, Sandra percebeu que liderança também se conecta ao impacto que se gera na vida de outras pessoas.
“Ao longo da minha trajetória tive muitos momentos marcantes, mas alguns deles aconteceram quando percebi que minha experiência e minha voz poderiam ajudar outras pessoas a crescer. Em determinado momento da carreira, a liderança deixa de ser apenas sobre resultados e passa a ter também uma dimensão de legado. Perceber que você pode contribuir para o desenvolvimento de outras pessoas, incentivar talentos e ajudar a abrir caminhos para novas gerações é algo extremamente significativo. Foi nesses momentos que senti com mais clareza a força construída ao longo da minha jornada profissional.
E falando em mulheres, foi esse sentimento que me fez tirar do papel um sonho que foi criar a Confraria das Mulheres Dirigentes de Entidades, iniciativa que concretizei na ABA, no final de 2023 e que começou tímida, com poucas lideranças e hoje já soma 37 mulheres, líderes de associações, entidades e sindicatos brasileiros.
A Confraria é espaço de apoio, sororidade e construção conjunta de soluções para os desafios enfrentados por mulheres no associativismo. O objetivo do grupo é estimular o empoderamento e inspirar avanços na valorização do papel das mulheres em cargos de liderança institucional, um setor ainda dominado por líderes masculinos. Ter hoje essas 37 mulheres que são exemplos, que estão fazendo a diferença, inspirando outras e abrindo caminhos, é muito gratificante e mostra que estamos ocupando os espaços que desejamos.”
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