A adolescência sempre foi um território de transição. Um espaço entre o que se é e o que ainda não se sabe que será. Mas, para os jovens de hoje, essa travessia parece mais densa e mais solitária. Crescer nunca foi simples, mas talvez nunca tenha sido tão atravessado por tantas camadas ao mesmo tempo: um mundo instável, relações mediadas por telas, excesso de comparação e uma pressão constante por desempenho antes mesmo de entender qual caminho seguir.
É a partir desse olhar que nasce o estudo AdoRlescência, conduzido pelo LAB Humanidades, da AlmapBBDO, em parceria com a Netflix. Mais do que mapear comportamentos, a pesquisa se propõe a escutar os adolescentes brasileiros e entender como é viver essa fase em um mundo estruturado pela incerteza. O resultado é um retrato que combina potência criativa com vulnerabilidade emocional e revela, sobretudo, um desencontro geracional que vai além das diferenças de repertório: trata-se de uma crise de escuta.
Entre os dados que mais chamam atenção está um sinal claro dessa ruptura: apenas 21% dos adultos acreditam que os adolescentes podem construir um futuro muito positivo. Ao mesmo tempo, os jovens relatam sentir que suas emoções não são levadas a sério e que vivem sob uma pressão constante para dar conta de um futuro que eles mesmos ainda não conseguem imaginar.
Uma geração moldada pela incerteza
Realizada entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, a pesquisa ouviu 2.800 pessoas em todo o Brasil, sendo 1.600 adolescentes e 1.200 adultos. O estudo combinou investigação quantitativa, conduzida pelo Instituto Locomotiva, com uma etapa qualitativa da MindSharing, permitindo acessar não apenas dados, mas camadas mais profundas da experiência adolescente.
A principal conclusão é que não foram apenas os adolescentes que mudaram: o mundo mudou. E com ele, a forma de viver essa fase da vida. A adolescência contemporânea acontece em um ambiente de instabilidade política, econômica e emocional, onde o futuro deixou de ser promessa e passou a ser fonte de ansiedade.
Hoje, 54% dos adolescentes dizem ter dificuldade em fazer planos de longo prazo, enquanto estabilidade financeira surge como um dos principais sonhos, não como ambição material, mas como proteção emocional diante de um cenário imprevisível.
A dor silenciosa e a pressão por performance
Os números revelam um cenário delicado. Segundo o estudo, 58% dos adolescentes relatam crises de ansiedade ou pânico, 61% afirmam que a pressão por sucesso os deixa ansiosos e 78% já enfrentaram mudanças bruscas de humor.
Em um dos dados mais críticos, 40% dizem já ter pensado em tirar a própria vida, enquanto 37% afirmam ter tentado se machucar propositalmente.
Nesse cenário, surge um dado do tempo atual: 12% dos adolescentes recorrem à internet, incluindo ferramentas como o ChatGPT, para buscar orientação emocional, superando os 10% que fazem terapia com profissionais.
A chamada “sociedade da performance” aparece como pano de fundo desse quadro. O medo de errar, a necessidade de performar e a sensação de que decisões tomadas agora definirão todo o futuro criam um estado constante de tensão. A pressão, em vez de motivar, muitas vezes paralisa.
Amor existe, mas a escuta falha
Dentro de casa, o estudo revela um paradoxo importante. Embora 98% dos adolescentes afirmem amar seus pais, a comunicação é atravessada por ruídos.
Há uma assimetria clara na percepção da relação: enquanto 94% dos pais consideram o convívio positivo, apenas 75% dos adolescentes concordam. Além disso, 30% dizem que a relação piorou com a chegada da adolescência.
O principal ponto de ruptura está na validação emocional. Para 68% dos jovens, seus sentimentos não são levados a sério pelos adultos. O resultado é um movimento silencioso: muitos adolescentes deixam de compartilhar o que sentem não por falta de vínculo, mas por medo de serem julgados, incompreendidos ou deslegitimados.
O algoritmo também educa
Se antes a formação dos jovens passava majoritariamente por família, escola e amigos, hoje ela é compartilhada com um novo agente: o algoritmo.
A pesquisa mostra que 57% dos adolescentes já se sentiram mais compreendidos por influenciadores do que por pessoas próximas. Redes sociais, vídeos, games e plataformas digitais deixaram de ser apenas entretenimento e passaram a atuar como mediadores de identidade, afeto e pertencimento.
Ao mesmo tempo, a hiperconectividade não é exclusividade dos jovens. O estudo aponta que os próprios pais passam mais tempo nas redes sociais do que seus filhos, revelando que o fenômeno digital é, na verdade, transgeracional.
Meninas sentem mais o peso da adolescência
Outro ponto relevante do levantamento é o recorte de gênero. Entre as meninas, 82% afirmam ter menos liberdade do que os meninos, e 76% dizem ser cobradas como adultas, mas tratadas como crianças.
Esse cenário se reflete diretamente na saúde mental. A pressão social, combinada com controle familiar e expectativas mais rígidas, torna a experiência da adolescência mais intensa e vulnerável para o público feminino.
Entretenimento como refúgio e conexão
No meio desse cenário complexo, o entretenimento assume um papel central. Mais do que distração, ele funciona como apoio emocional, espaço de identificação e ponte de diálogo.
Para 71% dos adolescentes, o entretenimento ajuda a lidar com sentimentos. Séries, filmes, música e games não são apenas consumo, são formas de processar emoções e encontrar referências.
Dentro das famílias, esse território ganha ainda mais relevância: 94% dos pais acreditam que assistir a conteúdos com os filhos cria conexão e memória, reforçando o papel do conteúdo como linguagem comum entre gerações.
O recado para as marcas: menos discurso, mais escuta
Para o mercado, o estudo deixa um alerta direto. Hoje, 63% dos adolescentes não se sentem representados pela publicidade.
Não se trata de falta de exposição, pelo contrário. Eles estão imersos em conteúdo o tempo todo. O problema é outro: excesso de comunicação pouco relevante, facilmente identificada como tentativa de venda.
Os adolescentes querem marcas que dialoguem com seu mundo real. Valorizam humor, identificação, histórias interessantes e conteúdos úteis. Querem participar, remixar, criar junto. Em vez de consumidores passivos, atuam como coautores culturais.
Entre as respostas mais diretas da pesquisa está um pedido simples e potente: humanizar a propaganda e fazer comunicação sem “cara de propaganda”.
Escutar pode ser o maior diferencial
No fim, o estudo da AlmapBBDO aponta para algo maior do que comportamento ou consumo. Ele fala sobre escuta.
Em um cenário onde os adolescentes se sentem pressionados, comparados e, muitas vezes, não levados a sério, a escuta aparece como um ativo raro e necessário. Para a sociedade, para as famílias e, especialmente, para as marcas.
Porque entender essa geração não é apenas uma questão de estratégia. É uma forma de entender o futuro enquanto ele ainda está sendo construído.