Para quem trabalha com live marketing, viajar é a oportunidade de fazer um exercício de observar como outras culturas constroem narrativas, infraestrutura, acolhimento e encantamento – pilares que sustentam experiências ao vivo em qualquer parte do mundo. Em um circuito recente por Doha, no Catar, Singapura e pelas cidades de Tóquio e Kyoto, no Japão, percebemos três realidades distintas. Cada destino, à sua maneira, entrega uma visão clara sobre como pensar a experiência, planejar fluxos, qualificar serviços e surpreender os convidados.
Em Doha, a experiência é o luxo sensorial e a construção de conforto. Em uma cidade onde o calor chega a extremos, a sensação térmica vivida pelo visitante é quase sempre oposta. Ruas climatizadas, ambientes refrigerados, limpeza radical, organização milimétrica e uma estética que mistura ostentação planejada com hospitalidade formal fazem o público sentir que tudo foi pensado para o seu conforto. Lá, os elementos urbanos funcionam como palcos, com shows de luzes e águas coreografadas, joias e fachadas cintilantes e contrastes visuais entre mármore e deserto.
Um símbolo dessa grandiosidade é a arena de cinco mil lugares feita inteiramente em mármore, inspirada no Coliseu, um statement arquitetônico que combina tradição clássica e tecnologia contemporânea. Doha também surpreende pelo mergulho cultural. A loja e o hospital de falcões, por exemplo, mostram tradições ancestrais que passam de pai para filho. Não é atração turística: é patrimônio vivo, identitário, emocional. Eventos são também uma ótima ferramenta para celebração de rituais coletivos.
Em Singapura, encontramos o poder do planejamento e da disciplina na construção de experiências. Poucas nações do mundo são exemplos tão claros de planejamento estratégico com disciplina de execução quanto esta. Até meados do século 20, o país era um porto caótico, insalubre, com altos índices de doenças, pobreza, criminalidade e tráfico. Em poucas décadas, transformou-se em uma das cidades mais organizadas, ricas e eficientes do planeta. E isso ensina muito ao nosso setor.
Singapura mostra que experiência não é apenas estética: é fluxo, ordem, previsibilidade, controle e rigor operacional, com tolerância zero ao “jeitinho”. Se em Doha o deslumbramento é o recurso, lá a aposta é na coerência, no ritmo e na funcionalidade.
Já no Japão, o que manda é o detalhe, o ritual e o entretenimento como experiência cultural. A experiência não está no excesso, e sim no detalhe preciso, no ritual, na gentileza, no cuidado silencioso. E também no contraste entre tradição e cultura pop. O Japão tem um universo de amuletos, omamori, rituais e símbolos presentes em templos, lojas, estações e casas. Tudo isso conversa diretamente com a mística interna do nosso mercado: aquela sensação de que existe uma “Nossa Senhora dos Eventos” que protege o que planejamos.
Assim como em Singapura, o “não ter jeitinho” é justamente o que faz dar certo. O Japão transforma entretenimento em urbanismo, com uso de luzes, trilhas sonoras, LEDs, painéis 3D hiper-realistas, Godzillas animados, performers fantasiados dirigindo karts pelas ruas. É uma explosão cultural que une criatividade, humor, nostalgia e tecnologia.
Na volta ao Brasil, trago reflexões para o setor de live marketing de nosso país. É possível fazermos eventos e ativações mais potentes no Brasil desde que entendamos que a experiência começa antes do conteúdo, com conforto, clima, limpeza, segurança, estética e narrativa sensorial que estruturam a base emocional do convidado. Também, o planejamento é parte do show, com fluxo, disciplina, infraestrutura e governança que permitem que a mágica aconteça sem ruído. Para um bom evento, temos que pensar nos detalhes que criam conexão mais profunda, no entretenimento como linguagem cultural e em rituais que realmente importam.
Em três mundos tão diferentes, Doha nos mostra que encantar é possível, colocando o conforto como espetáculo; Singapura prova que “funcionar” é indispensável, e que a organização é o centro da estratégia; e o Japão revela que tocar as pessoas depende do detalhe, ao trazer memórias afetivas. Mas o princípio é sempre o mesmo: o consumidor é a prioridade e a experiência é sempre sobre pensar nas pessoas.
Por: Marcio Carvalho, CEO da Onze Marketing e Comunicação
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