A Havaianas não é apenas uma marca de sandálias. Ao longo de décadas, construiu um lugar no imaginário e no coração dos brasileiros. A marca pode ser considerada um símbolo cultural, transversal, popular e, ao mesmo tempo, global. Por isso mesmo, qualquer movimento da companhia tende a ir além do marketing. A campanha estrelada por Fernanda Torres comprovou mais uma vez essa condição ao sair do território da publicidade e entrar, sem pedir licença, no debate político e na guerra de narrativas das redes sociais.
O que começou como uma campanha de verão, leve e bem-humorada, terminou como um dos episódios mais comentados deste fim de ano sobre como marcas, cultura e polarização política se cruzam no Brasil.
A campanha da Havaianas
A campanha da Havaianas com Fernanda Torres não nasce como uma ação pontual, mas como um movimento de verão estruturado em capítulos, iniciado em outubro e desenvolvido ao longo dos meses finais de 2025. O último filme da campanha criado pela GALERIA.ag, que estreou no dia 18 de dezembro, foi gravado na loja conceito da Havaianas em Ipanema, retomou o conceito central do movimento — “Todo mundo usa. Todo mundo ama.” — e convidou o público a entrar em 2026 “com os dois pés”.
A expressão é explorada em tom lúdico, com múltiplos sentidos: pés na porta, na estrada, na jaca, onde quiser. A mensagem fala de entrega, presença e intensidade, valores que dialogam tanto com o espírito do verão quanto com a proposta histórica da marca.
Quando a campanha vira assunto político
O ponto de inflexão acontece quando Fernanda Torres brinca com a expressão popular “entrar no ano com o pé direito”, sugerindo, em tom de humor, entrar “com os dois pés”. A frase foi rapidamente recortada, reinterpretada e enquadrada por grupos nas redes sociais como uma suposta provocação política, já que em 2026 o Brasil terá novas eleições para eleger seus governantes. A associação da expressão “pé direito” com a direita ideológica serviu de gatilho para uma onda de críticas, ataques e convocações de boicote à marca.
Em poucas horas, a campanha saiu do campo da publicidade e entrou no noticiário político, sendo usada como munição simbólica na disputa entre campos ideológicos.
A reação nas redes: boicote, defesa e disputa simbólica
Pouco tempo depois de o novo filme ir ao ar, a campanha da Havaianas passou a concentrar uma onda de comentários negativos nas redes sociais, muitos deles já assumindo explicitamente um tom de boicote. Parte das mensagens sugeria a troca da marca por concorrentes.
Em paralelo, pessoas ligadas à extrema direita passaram a publicar críticas diretas à Havaianas, questionando seu papel como símbolo nacional e afirmando que a marca deixaria de representar “todo mundo”.
Ao mesmo tempo, a reação negativa gerou um movimento de defesa espontânea. Consumidores e fãs da campanha saíram em apoio à escolha de Fernanda Torres e ao posicionamento da marca, destacando tanto o valor cultural da atriz quanto o papel histórico da Havaianas na economia brasileira, na geração de empregos e na valorização da produção nacional.
O episódio escancara como campanhas de marcas populares, ao ocuparem o centro do imaginário cultural, acabam se tornando territórios de disputa simbólica. Em um cenário de hiperpolarização, a leitura do público, amplificada por lideranças políticas e influenciadores, passa a importar mais do que o briefing original.
Assista ao filme:
Leia outras notícias: https://marcaspelomundo.com.br/?s=havaianas